Brega Pop - Música Paraense

A explosão na década de 80 (EDSON COELHO DE OLIVEIRA)


Brega rompeu a casca junto com o B-Rock e a música regional

Edson Coelho de Oliveira
Jornal Oliberal - Caderno Magazine - 13/março/2006

Roberto Villar
A explosão do brega no início de 1980 está naturalmente situada num contexto sociopolítico e artístico, brasileiro e paraense. O País saía do regime militar, mas ainda tinha pelo ar um gostinho de revolução, e fazer arte em Belém naquela década foi a revolução que coube àquela geração de jovens. Não apenas o brega rendeu grandes ídolos – nunca, em muitas décadas, a música paraense intelectualizada gozou de tanta fama. Nilson Chaves e Vital Lima (seu disco em parceria ‘Interior’ é antológico), grupo Porta de Casa, que, de certa forma, gerou o Arraial do Pavulagem; Walter Freitas, Tony Soares, Almirzinho Gabriel. Para o brega como para o que se chamaria de MPP (Música Popular Paraense), a década de 80 representou um período bem marcado, do apogeu à queda.

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Em meados da década de 80, talvez 86, o brega obtinha dupla vitória, digamos assim, contra o sistema das grandes gravadoras e o preconceito: passou a tocar na FM, o maior frisson da época, como se tocar na rádio consumida pela classe média referendasse aquele ritmo marginalizado. O rock brasileiro estourou – e o de Belém junto. Os ídolos nacionais eram rapazes urbanos, de Rio, São Paulo, Brasília; pouco a ver com Oriximiná, mais chegado a um Caribe: a música paraense tinha sua vez e hora, até porque dispunha de talentos para isso. Para se ter uma idéia, basta comparar: qual o ídolo de 20 anos que a cidade tem hoje?

Gravadora – Àquela época, a música de Belém atendia a vários segmentos: parte dos músicos ouvia o fino do rock, inclusive optando por compor em inglês; outros tematizavam o Pará com alta poesia (Walter Freitas), outros inauguravam a MPP pop (Henry Burnett, Augusto Hijo), e, entre outras vozes, a periferia reinventava o Caribe. Acompanhando o momento histórico e o público crescente, o brega ganhava melhores equipamentos, músicos especializados, formou ídolos, tudo isso baseado num tripé bastante alternativo: as aparelhagens, até hoje responsáveis por uma das diversões mais características do paraense; as rádios (como diz a professora Neusa Pressler, em estudo sobre o brega, são importantíssimo instrumento de informação entre as comunidades); e uma pequena gravadora, a Gravasom, de Carlos Santos, que tinha entre seus produtores Manoel Cordeiro, um dos sintetizadores do ritmo.

Os ídolos – Mauro Cota, Ted Max, Juca Medalha, Os Panteras, Banda Xeiro de Amor, Miriam Cunha e muitos outros conquistaram o público de forma avassaladora. O brega não podia ficar parado e modificações foram sendo acrescentandas: o ritmo ficou cada vez mais veloz e moderno, gostoso de dançar. Assimilou de forma mais ostensiva elementos da música eletrônica. Atingiu o auge no apagar da década de 80, não sem antes consagrar uma das suas variações que mais fizeram sucesso: Beto Barbosa e a lambada ganharam até as telas de cinema.

Como fomos de Tom Jobim ao ‘Chalálá’

Estudávamos no Souza Franco, segundo ano, jovens pobres ou remediados, mas com um bocado de esporões, dizíamos, ‘o povo chegando’. Chamávamos de maestro o professor de literatura, Sérgio Sapucahy, que ensinava gramática com letra de música e botava Chico e Caetano na prova de poesia. Não raro, o Luiz Guilherme – especialista em samba – cantava algum clássico em sala; amávamos bossa nova, o Luiz cantava demais e certamente todos dominaríamos o mundo, como cabe a jovens de dezoito anos. Uma vez - após esquecer por várias semanas - o professor Sérgio levou a antologia do Drummond, que tinha ‘Procura da poesia’. Li na hora. Como disse Cláudia Roquete-Pinto, foi minha primeira epifania. Às vezes íamos para Icoaraci, e Luiz, com uma simples tuba, fazia a gente amanhecer feliz, na orla, se acabando nas batidas de pinga e roucos de cantar em coro. Ele era um dos melhores cantores da noite de Belém, e se inscreveu no concurso de calouros da rádio Marajoara. O prêmio era gravar um compacto. Cantou ‘Agonia’, do Oswaldo Montenegro, na qual sua voz passeava. Ganhou. A Gravasom disse que seria um disco de brega. O Luiz não se conformou. Ora, ele amava Tom Jobim e sabia tudo de Vinicius, aprendera literatura com um maestro, com que cara gravaria brega? Gravou. O professor Sérgio já sabia, e tudo, e chegou o dia de ouvir a voz guia: estávamos sentados no chão do corredor do segundo andar, Sapucahy chegou, ligou-se o gravador. Ele só pediu para o Luiz ter cuidado, na voz definitiva, com certa pronúncia. Ora, se como compositor o Luiz Guilherme dobraria os direitos autorais, por que não gravar as próprias músicas? Foi aí que eu, poeta formando nas hostes de Mallarmé e João Cabral, tornei-me letrista de brega. Escrevi ‘Cansei de esperar’ (’Te esperei/com ternura de esperei/como ninguém mais esperou…’) em menos de meia hora, no mato perto da minha casa, na Cidade Nova. O Luiz teve a idéia de acrescentar à melodia um ‘chalalá’; tornou-se um dos três maiores clássicos do brega paraense. Eu passara no vestibular pra Comunicação, descobria mundos e pessoas, e tava sempre nos shows do Luiz. Casa cheia. Meninas delirando. Nas cidades do interior, então. O Luiz passou a gostar de brega. Aquele universo, a admiração, a vitória. ‘Por que não fazer com mais recursos, mais ousadia?’ Antes dos shows, os cantores se reuniam, alegres, bem vestidos. Conheci o Ted Max antes de ele gravar ‘Ao pôr-do-sol’. Enquanto isso, o ‘Melô do Chalalá’ tocava direto – no ônibus, no boca-de-ferro, no Ver-O-Peso, nas lojas de discos – era talvez o maior sucesso da época. O Luiz cantava nas melhores casas e tinha regalias. Firmou temporada de meses e meses no Lapinha. Nunca – bons tempos – esgotávamos a consumação a que ele tinha direito. Uma vez, fui com ele aos bastidores dos shows e aguardamos no corredor para o palco. As mulheres passavam vestidas, se apresentavam, e voltavam nuas. Uma após a outra; nunca vi – bons tempos - tanta mulher nua na vida. O Guilherme gravou outros discos, produzidos por Manoel Cordeiro, maestro do brega. Gravou ao todo umas quarenta músicas nossas. Vários sucessos. Eu ficava feliz pelo Guilherme, gostava dos shows, e tal, mas brega não era de fato a minha. A carreira do Luiz começou a decair junto com o todo do movimento brega, pondo no ostracismo cantores como Mauro Cota e Fernando Belém. Na redação de O Liberal, os colegas surpreendiam-se que eu tivesse escrito ‘Cansei de esperar’. Uma vez, vários jornalistas cantaram ao mesmo tempo a música, com direito a coreografia de gente em cima das bancadas. O Luiz continua vivendo de música – faz shows na noite e especializou-se em Baile da Saudade. Eu, gosto muito mais de brega hoje – da festa, do povo, dos dançarinos maravilhosos, da movimentação que lembra minha adolescência ao som das aparelhagens; e de algumas melodias e letras. Tenho, inclusive, uma tese de por que o brega foi sintetizado no Pará. Imagine um dançarino heavy metal que exija a música sempre mais rápido, dança vertiginosa, para melhor exibir-se, e os cantores então foram misturando, modificando os ritmos: para atender aos pares. Em vez de apenas dois por dois, passagens na música para se percorrer girando o salão; em vez do básico dos ritmos, em que se vai e volta, o paraense queria uma levada infinita, e os músicos o atenderam. O brega é uma parceria de músicos competentes com os populares dançarinos. A dança é um dos maiores prazeres do corpo. O povo chegou.

Final dos 90, a briga feia com o axé

Um dos alicerces do brega – o apoio das rádios – praticamente sumiu no início dos anos 90, nacionalmente dominada pela axé music e pelos sertanejos. Desta vez, os grandes ídolos nacionais não eram garotos da classe média, mas pessoas do povo tocando para o povo. Concorrência feroz para o brega. Alguns surfaram na onda – a paraense Fruta Quente foi uma das maiores bandas de axé do Brasil. Outros investiram no sorumbático nicho do então brega chic, sempre modernizando-o. A ausência de uma gravadora (e o barateamento industrial) obrigação à criação do sistema próprio de registro, distribuição e vendas, durante os shows. O ritmo acelerou-se ainda mais, ganhou sintetizadores, skatches, teclados, guitarras que criam bases peculiares, mais suingadas, investiu na computação sonora e na internet, atualizou-se sem perder o sabor dançante da cultura em que surgiu, arregimentou nomes carismáticos e compositores talentosos (o cantor Wanderley Andrade, Edílson Moreno, este também um dos melhores compositores-cantores da chamada MPP), o brega, enfim, o calypso, deu a volta por cima de forma tão espetacular que o próprio mercado brasileiro foi sacudido de forma espetacular.

O primeiro grande momento dessa virada deu-se em 1997, quando o cantor e compositor Roberto Villar lançou o vinil ‘Ator principal’ e estourou quase todas as músicas no Pará inteiro. (Até hoje a obra vendeu mais de 500 mil cópias, nunca saiu de catálogo e garante shows regulares de Villar em vários Estados).

‘Nasci em Primavera, em fevereiro de 62′, lembra Villar. ‘Tudo parecia muito distante, impossível, imagine sonhar em viver de música? Eu tinha um irmão, Pompílio (meu principal parceiro) que só pensava em ser cantor, gravar, virar artista. Eu comecei por acaso, num concurso de calouros em Castanhal, para onde nos mudáramos e onde moro até hoje. Ganhei, e me inscrevi noutros, e sempre dava sorte, até que (recebera uma indenização trabalhista) desistiu de gravar o próprio compacto para que eu tentasse. Participei de uma coletânea, em 1987, depois cheguei a tocar na banda do Pinduca, gravei os primeiros e, em 97, veio a alegria do ‘Ator principal’, que udou a minha vida’, recorda Villar.

‘Naquela época era tudo muito difícil – a produção, a gravação, a comercialização; hoje, com um computador em casa você grava um disco’, compara Villar. ‘Hoje é o jabá. Se não pagar, não toca, não entra; talvez eu nem devesse falar isso assim, mas isto é terrível para o artista, sobretudo os que estão começando, sem dinheiro.’

Chimbinha tocou com Roberto Villar por vários anos, e foi em discos de Villar que experimentou as guitarradas que hoje caracterizam a Banda Calypso. ‘Eles conseguiram ir mais longe do que eu tinha ido – graças a Deus: me sinto também um desbravador, que rompeu barreiras, ajudou a abrir a estrada.’

Roberto Villar já vendeu quase um milhão de discos entre os cinco elepês (hoje, vende basicamente durante os shows e pela internet, a R$ 7 o CD) e entra em estúdio ainda este mês para gravar novo disco. Excursiona com um grupo de 10 pessoas e lançará, talvez ainda este ano, o primeiro DVD da carreira. ‘Acho que o brega não é uma moda passageira. Ele já sofreu muitos baques, se não caiu não cairá mais. Ao contrário, a tendência é crescer.’ Num momento em que o rock e a MPP enfrentam a dura concorrência de todo o Brasil, venceu a guerra quem cantou o próprio quintal.


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